Homo Sapiens e seu comportamento

Homo Sapiens e seu comportamento

30/09/2019
Homo Sapiens e seu comportamento

Noções sobre o desenvolvimento da personalidade
Vivências infantis
Aprendizado geneticamente facilitado.

Escrito por: Jorge Alberto Salton

Este tema é muito amplo, impossível de ser esgotado em algumas aulas, talvez nem em um curso inteiro. São muitas as teorias que tentam responder a pergunta: quem é o ser humano? Portanto, apenas explicarei algumas noções. Em aula aprofundarei um pouco mais.
O próprio termo ‘personalidade’ apresenta inúmeras definições diferentes. No caso, optamos pela definição de Allport: "Personalidade é o que o indivíduo realmente é". Ou seja, é o jeito do indivíduo se relacionar com os outros e consigo mesmo. Numa expressão popular: "é o jeitão dele".
Comecemos com a fórmula de Freud: P = H (G + IU + p) + VI. H=hereditário; G=genético; IU=intrauterino; p=parto; VI=vivências infantis.
A teoria psicanalítica de Freud dedicou-se a dissecar as vivências infantis, sua influência na formação da personalidade do ser humano e no desenvolvimento de transtornos mentais.
A vida intrauterina pode determinar inclusive a preferência sexual/afetiva hetero ou homossexual do ser humano. O aporte de hormônios no feto influencia na formação de um cérebro masculino ou feminino.
A medicina estuda as conseqüências de um bom ou mau nascimento (parto/cesariana) na saúde geral, inclusive mental, do indivíduo.

A influência dos genes

Os genes, por sua vez, se constituem em assunto do momento. Segundo sociobiologistas como Edward O. Wilson e outros, herdamos traços neurobiológicos que nos fazem ver o mundo de certa maneira e aprender certos comportamentos de preferência a outros.
Martin Seligman e outros falam em aprendizado preparado ou facilitado: animais e seres humanos estão inatamente preparados para aprender certos comportamentos e predispostos a rejeitar outros.
O medo de cobras entre os primatas serve de exemplo. Certos macacos emitem um alerta anticobra. São competentes herpetologistas instintivos, pois a reação, que parece ser inata, limita-se a cobras venenosas. Outros macacos acorrem ao chamado e, juntos, vigiam a cobra até certificarem-se de seu afastamento.
Os seres humanos também possuem uma aversão inata a cobras que, à semelhança do chimpanzé, aumenta na adolescência. Aprendemos a temer as cobras mais facilmente do que aprendemos a permanecer indiferentes ou até mesmo a se afeiçoar a elas: trata-se de um aprendizado geneticamente facilitado.
Hipótese semelhante já havia sido levantada por Carl Gustav  Jung ao desenvolver os conceitos de inconsciente coletivo e de arquétipos. Jung, suiço de nascimento, aproximou-se de Freud em 1906 e manteve com ele uma relação intelectual fecunda até 1914. Inclusive, quando a Associação Internacional de Psicanálise foi fundada em 1910, Jung, a pedido de Freud, tornou-se seu primeiro presidente. É comum uma personalidade forte como a de Freud atrair e depois repelir outras igualmente fortes. As causas do rompimento entre eles certamente foram complexas. Uma das razões, segundo Jung, se deveu ao pansexualismo de Freud: "A razão imediata foi que Freud... identificou seu método com sua teoria sexual, o que eu considerei inadmissível".
A idéia de inconsciente coletivo desenvolvida por Jung abrange o desenvolvimento evolutivo de nossa espécie. Consiste no depósito de traços de memória herdados do passado ancestral do homem, um passado que inclui não somente a história racial do homem e de uma espécie separada, mas também seus ancestrais pré-humanos e animais. Todos os seres humanos tem, mais ou menos, o mesmo inconsciente coletivo. As memórias, as representações mentais não são herdadas como tais, o que herdamos é a possibilidade de reviver experiências das gerações passadas. Por exemplo, já que os seres humanos sempre tiveram mães, cada criança nasce com a predisposição para perceber a mãe e reagir frente a ela. O conhecimento da mãe, adquirido individualmente, consiste na realização de uma potencialidade herdada. Não se assemelha a idéia de aprendizado facilitado?
Jung chamou um dos componentes do inconsciente coletivo de arquétipo. Um arquétipo é um depósito permanente de uma experiência que foi constantemente repetida durante muitas gerações. Por exemplo, o arquétipo mãe.
O homem é impelido à ação por seus arquétipos. Por exemplo, a energia seria um arquétipo. O homem esteve exposto, através de sua existência, em inumeráveis ocasiões, às grandes forças naturais – terremotos, tempestades, furacões, incêndios nas florestas, etc. Dessas experiências surge um fascínio. O arquétipo energia explicaria a facilidade com que a criança se sente atraída por brincar com o fogo, a atração do adolescente pela alta velocidade, o adulto sempre a buscar uma tecnologia que lhe permita comandar e controlar mais força, mais energia.
A psicologia evolucionista também vê a conduta humana pressionada por determinantes inconscientes, chama-os de genéticos e pensa que eles aparecem, desaparecem e se modificam em acordo com as leis da seleção natural descritas por Charles Darwin e Alfred Wallace.
A seleção natural é governada pela competição entre os genes para serem representados na geração seguinte. Nossa espécie viveu mais de noventa por cento de sua existência em condições primitivas. Os homens andavam atrás da caça, copulavam com o maior número de fêmeas que podiam, matavam-se uns aos outros. As mulheres ou estavam grávidas ou com filhos pequenos no colo.
Os homens, quanto mais mulheres engravidassem mais possibilidades teriam de perpetuar seus genes. Às mulheres de nada adiantaria terem muitos machos. Devido aos nove meses de gravidez só poderiam ter um número limitado de filhos. A elas interessavam estratégias úteis à sobrevivência de sua pequena prole. É por isto, dizem os psicólogos evolucionistas, que tendiam a valorizar mais a confiabilidade, a estabilidade e o poder do que a beleza do parceiro.
Nas agências de namoros as mulheres lêem os formulários, enquanto os homens olham as fotos. Nos formulários verão a estabilidade, a confiabilidade e o poder do homem (qualidades necessárias de um companheiro útil à sobrevivência da pequena prole da mulher).
Os homens dão mais valor que as mulheres à juventude e aparência bela: qual melhor garantia de boa saúde e, em conseqüência de mais fertilidade e de melhores genes?
Clark e Hatfield, psicólogos norte-americanos, contrataram homens e mulheres atraentes para abordarem estranhos do sexo oposto em alguns campus universitários. Forçavam uma aproximação e diziam algo assim: "Tenho notado você aqui no campus. Acho você muito atraente". Ato contínuo, faziam as seguintes três perguntas: (a) "Gostaria de sair comigo esta noite?" (b) "Gostaria de ir ao meu apartamento esta noite?" (c) "Gostaria de ir para a cama comigo esta noite?". Metade das mulheres consentiu em sair à noite. Seis por cento das mulheres consentiu em ir ao apartamento do auxiliar de pesquisa. Setenta e cinco por cento dos homens - contra nenhuma das mulheres - , consentiu em ir para a cama com a auxiliar de pesquisa naquela noite.
Por que ter um caso? Para as mulheres o outro é, pelo menos na sua fantasia, de algum modo superior/melhor que o marido (mais apto a ajudá-la na sobrevivência da pequena prole). E para os homens, por que ter um caso? Simplesmente porque é uma outra mulher.
Como regra, em todas as culturas se repetem essas observações. Uma mulher ter relações sexuais com outro homem é sempre uma ameaça aos interesses genéticos do homem, pois isso pode lográ-lo, levando-o a trabalhar para os genes de um concorrente. Ao contrário, para a mulher, não necessariamente constitui uma ameaça a seus interesses genéticos. O filho ilegítimo desse homem é problema da outra mulher. Resultado: os homens ficam mais transtornados com a idéia da sua mulher ser sexualmente infiel do que emocionalmente infiel. Quantas vezes já ouvi em meu consultório: "Doutor, ela teve uma paixão por outro cara. Nada demais, não houve sexo". Já para as mulheres é o contrário: "Ele teve um caso, mais foi só sexo". Dói nas mulheres é seu companheiro gostar de outra. A estabilidade afetiva para cuidar da prole não pode ser quebrada.
Para os psicólogos evolucionistas os homens ao se mostrarem poderosos atraem as mulheres, sempre preocupadas em ter um companheiro em condições de auxiliá-la na sobrevivência de sua pequena prole. Primitivos habitantes da costa canadense do Pacífico competem entre si pelo tamanho dos banquetes que oferecem. O anfitrião literalmente despeja sobre os convidados cestos de frutas e pilhas de cobertores. O convidado-concorrente vai embora humilhado e em seu banquete dá as mesmas coisas e, além disso, faz uma grande fogueira e queima uma outra porção destas coisas.

A influência das vivências infantis
 

Freud acreditava que a criança é o pai do homem. Para ele, aos cinco anos de idade a personalidade já forma a base de sua estrutura. As pessoas significativas nestes primeiros anos se constituem nas figuras de identificação mais importantes.
A criança instintivamente vai em busca da realização de seus desejos e toma por modelo pessoas que lhe parecem mais capazes do que ela de alcançar tal realização. Identifica-se com os pais, ou quem faz esta função, porque eles lhe parecem onipotentes pelo menos nos primeiros anos. Aos poucos, vai descobrindo e se identificando com outras pessoas. A maior parte deste processo de identificação se faz de forma inconsciente.
O estudo das vivências infantis gerou um conteúdo muito amplo e interessante. A seguir, passarei a comentar apenas um ou outro sub-tema sem outra pretensão do que a de despertar-lhes o interesse pelo estudo desta área do conhecimento humano.

Mecanismos de defesa
Mesmo crescendo, conseguindo boas identificações e sendo, muitas vezes, bem sucedida quanto à realização de seus desejos, a frustração é inevitável. É condição humana não conseguir satisfazer plenamente seus desejos e, em conseqüência ver-se invadido por sentimentos desagradáveis tipo frustração, inveja, raiva. Frente a isto, o ego defende-se utilizando os chamados mecanismos de defesa. Entre outros:
a. Repressão: empurrar os conteúdos desagradáveis para o "fundo" do inconsciente;
b. Projeção: as "coisas ruins" não estão dentro da pessoa e sim fora em alguém; em vez de "minha consciência me perturba", "ele me persegue"; em vez de "eu estou tomado por sentimentos de raiva", "ele me ataca".
c. Fixação: no curso do desenvolvimento normal, a personalidade passa por estágios bem definidos até alcançar a maturidade; a pessoa pode fixar-se em um estágio por que o seguinte lhe desperta intoleráveis frustrações e ansiedades.
d. Regressão: a pessoa tende a regredir ao estágio em que havia se fixado anteriormente; uma criança que foi excessivamente dependende procurará voltar a esta situação quando frente a dificuldades.

Complexo de Édipo
Para Freud, todo o ser humano vivencia um complexo de sentimentos ao qual ele denominou de Complexo de Édipo. Freud utilizou-se de uma lenda descrita por Sófocles – de Édipo que matou Laio e casou com Jocasta, sem saber que o primeiro era seu pai e a segunda sua mãe – para denominar um fenômeno psíquico vivenciado de forma inconsciente na infância, composto por sentimentos amorosos dirigidos ao genitor do sexo oposto e agressivo ao genitor do mesmo sexo.
Segundo a lenda, Laio, rei de Tebas, foi avisado por um oráculo que se fosse permitido que seu filho recém nascido crescesse haveria perigo para seu trono e sua vida. Laio entregou a criança a um pastor e deu ordens para matá-la. O pastor não teve coragem de fazê-lo com as próprias mãos. Amarrou a criança pelos pés e deixou-a dependurada no tronco de uma árvore. O menino foi encontrado por um camponês que o levou a casa de seu patrão que o adotou e colocou-lhe o nome de Édipo ou Pé-Inchado.
Passados muitos anos, estando Laio a caminho de Delfos, acompanhado de um só criado, deparou numa passagem estreita, um jovem conduzindo uma charrete. Como o jovem se recusou a obedecer suas ordens e a deixá-lo passar por primeiro, o criado matou um dos cavalos. Irado, o jovem matou o criado e Laio. Esse jovem era Édipo que acabara de matar o próprio pai.
Algum tempo depois, a cidade de Tebas foi afligida por um monstro, Esfinge, que tinha o corpo de leão, mas a parte superior era de mulher. A Esfinge ficava debruçada em cima de uma rocha e parava todos os viajantes que cruzavam a estrada propondo-lhes a resolução de uma adivinha. Aqueles que errassem seriam mortos. Quando Édipo se deparou com a proposta, prontamente aceitou o desafio. A Esfinge perguntou: "Que animal pela manhã anda de quatro pés, ao meio-dia com dois e à noite com três?" Édipo respondeu: "O homem que na infância engatinha, na juventude anda ereto e na velhice caminha com a ajuda de uma bengala". A Esfinge ficou tão irritada ao ver seu enigma resolvido que se atirou da rocha e morreu. A gratidão do povo por ter sido libertado desse perigo, fez com que fosse transformado no rei ocupando a vaga deixada vaga pela morte de Laio. Édipo aceita e casa com a rainha, Jocasta, sua mãe biológica. Mais adiante, quando Tebas foi atingida pela fome e pela peste, o oráculo revelou o duplo crime de Édipo: matar o pai e casar com a mãe. Jocasta suicidou-se e Édipo arrancou seus próprios olhos e sai a andar sem rumo amparado apenas por suas filhas.
Segundo Freud, o Complexo de Édipo se processa entre os três e os seis anos na chamada fase edípica. Tanto o menino quanto a menina amam a mãe porque ela satisfaz as suas necessidades básicas, ressentindo-se contra o pai porque ele é visto como rival nas afeições da mãe. Tais sentimentos persistem no menino e mudam na menina.
O menino imagina que o pai, seu rival, vai entrar no conflito e procurará castigá-lo. O medo da punição paterna circunscreve-se aos órgãos genitais, pois estes são a fonte dos desejos incestuosos. O menino receia que o pai, por ciúme, vá tirar-lhe os órgãos genitais. O medo da castração leva o menino a reprimir o desejo sexual em relação à mãe, bem como a hostilidade em relação ao pai. Essa situação conduz o menino a identificar-se com o pai. Identificando-se com o pai, obtém uma satisfação vicária dos impulsos sexuais em relação à mãe. Seu sentimento erótico, perigoso, converte-se em tenra afeição para com a mãe.
A repressão do Complexo de Édipo permite que o superego atinja o ponto final do seu desenvolvimento. O superego é a segurança contra o incesto e a agressão.
A menina, por sua vez, troca seu amor original pela mãe por outra pessoa, o pai. Isso se deve, em parte, ao desapontamento que sofre ao descobrir que o menino possui um órgão sexual protuberante, o pênis, ao passo que ela tem apenas uma cavidade. Tal traumática descoberta produz várias conseqüências. A menina atribui à mãe a culpa pela sua condição de "castrada", o que enfraquece seu amor por ela. A menina transfere seu amor ao pai porque ele possuio órgão valorizado. Contudo, seu amor pelo pai, bem como por outros homens, aparece mesclado de inveja porque eles possuem aquilo que falta a ela. A inveja do pênis corresponde ao medo de castração no menino, sendo ambos chamados Complexo de Castração. A menina imagina ter perdido algo de valor e o menino receia perder. A menina também resolve seu Complexo de Édipo identificando-se com a mãe, numa tentativa de reparar os ataques que em fantasia realizou contra ela.
A resolução adequada do Complexo de Édipo, resultando num esforço positivo na correta identificação quanto ao gênero masculino ou feminino, depende em muito da fase anterior, pré-edípica.
O núcleo primitivo de identificação com o gênero, é normalmente completado entre dois e meio e três anos de idade. Portanto, num período relativamente breve, a criança adquire o senso de identificação quanto ao gênero que poderá ou não ser compatível com o de seu corpo biológico (quando não compatível: transexualismo). Este núcleo inicial vai influir na adequada ou inadequada resolução do Complexo de Édipo.
Recuando mais, estudos recentes confirmam que já no útero devido a uma exposição diferenciada a hormônios como a testosterona, o cérebro já começa a revelar diferenças masculinas e femininas.
O Complexo de Édipo vem sendo criticado pelos psicólogos evolucionistas. Acreditam eles que a proibição do incesto não se deve a esse fenômeno descrito por Freud e sim a um aprendizado facilitado pela pressão genética.
Vamos explicar esta hipótese a partir da pergunta: porque todos os organismos biológicos reproduzem-se sexualmente? Eles poderiam simplesmente se replicarem. Mas não, eles "preferem" trocar a metade de seus genes. E por que os organismos trocam a metade de seus genes? Resposta: quem assim não o fez, não sobreviveu.
O sexo constitui uma defesa contra parasitas e contra microorganismos causadores de doenças. Os germes desenvolvem estratégias para infiltrar-se nas células e apoderar-se das matérias primas celulares e para fazer-se passar por elemento do próprio organismo escapando de seu sistema imune. Sejam quais forem as "fechaduras" moleculares que tiverem evoluído no corpo, os agentes patogênicos podem desenvolver chaves para abrí-las. Ora, se um organismo é assexual, quando agentes patogênicos arrombam o cofre de seu corpo, também terão arrombado os cofres dos filhos desse organismo. A reprodução sexual é um modo de mudar as fechaduras uma vez a cada geração. Trocando metade dos genes por uma metade diferente, um organismo dá à sua prole uma vantagem inicial na corrida contra os germes locais. Suas fechaduras moleculares tem uma combinação diferente, e assim os germes tem de começar do zero, dando tempo ao novo ser de tornar-se mais forte que os invasores. Portanto, quem assim não o fez, não sobreviveu.
Pois bem, o incesto, por sua vez, também reduz a aptidão da prole. Todos nós portamos o equivalente a um ou dois genes recessivos letais. Quando pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã acasalam-se é grande a probabilidade e terem uma prole prejudicada. A repugnância pelo sexo com um irmão é tão intensa em vertebrados móveis de vida longas que é uma boa candidata a ser uma adaptação.
Os seres vivos são replicadores que evoluem pela seleção natural, ao longo de períodos de tempo imensamente longos.
A medida que os replicadores se replicam, erros aleatórios de cópia às vezes emergem. Os seres que surgem do erro e que apresentam capacidades mais favoráveis à sobrevivência no meio melhoram a taxa de sobrevivência e reprodução do replicador e tenderão a acumular-se no decorrer das gerações.
É compreensivel que nos humanos, pelo mesmo motivo, tenha evoluído uma emoção de repulsa a ter relações sexuais com um membro da família. Pois bem, Westermarck colecionou uma  série de evidências nesse sentido no que passou a ser conhecido como Efeito Westermarck: a convivência quando os dois ou pelo menos um é pequeno, determina a repulsa sexual entre um homem e uma mulher.
Em kibutz meninos e meninas da mesma idade compartilhavam a moradia, indo para lá pouco depois de nascer e ali vivendo até o final da adolescência, sendo criados juntos. Quando se tornavam adultos raramente se acasalavam, embora isso não fosse desincentivado.
Em algumas partes da China, os pais adotavam uma noiva para o filho quando ela ainda era criança. Quando cresciam não sentiam atração mútua e os casamentos fracassavam mais do que os outros casamentos.
Os pais que abusam sexualmente das filhas tendem a ter passado menos tempo com elas quando eram pequenas.
Esta teoria de Westermarck começa a eclipsar o Complexo de Édipo de Freud. Seus defensores, inclusive, afirmam que ela está contida na própria lenda. Édipo casou sim com Jocasta e teve quatro filhos com ela, sua mãe biológica. Mas, é compreensível: Édipo nunca convivera com a mãe.
Freud declarou que a repulsa à idéia de sexo com mãe, pai, irmãos, essa emoção acentuada é ela própria a prova de um desejo inconsciente. A psicologia evolucionista critica este argumento dizendo que se o tomassemos como verdade deveríamos concluir que: as pessoas tem um desejo inconsciente de comer fezes de cachorro; de enfiar agulhas nos olhos e assim por diante.

Auto-estima
Para Winnicott, o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe, sobretudo o seu olhar. Ao olhar-se no espelho do rosto materno, o bebê vê-se a si mesmo. É grande a responsabilidade da mãe real. É neste espelho que o bebê forma uma opinião estimada ou não de si mesmo. É o início da construção da auto-estima.
Narciso, segundo a lenda, rejeitou o amor de Eco e de outras pretendentes porque ao beber água num lago viu sua imagem refletida e se apaixonou por ela. A paixão foi tão grande que ele não mais conseguiu se afastar e acabou sua vida aí.
Pois bem, todos passamos no início da vida por uma necessária fase narcisista. Precisamos nos acharmos o maior e o melhor inclusive para aliviar a esmagadora sensação de que não somos nada perto da grandiosidade do mundo. Somos os menores e os piores, no sentido de que nada sabemos fazer. A fantasia do contrário vem nos salvar: somos os maiores, os melhores, somos como Narciso.
Os pais reforçam este indispensável narcisismo ao olhar seu nenê como o ser mais bonito que já existiu sobre a face da terra. Vamos crescendo, conhecendo um pouco mais a vida, ficando um pouquinho mais fortes, tendo outras fontes de prazer e vamos deixando na lembrança esta fase chamada de narcisismo primário. Está bem, não somos o Narciso, mas alguém é. Ou seja, estamos prontos a idealizar alguém, a nos apaixonarmos não mais por nós mesmos mas por este ser que idealizamos, pelo Narciso. Grudamos o olho em alguém: ali está o ser mais maravilhoso que existe. Tenho de conquistá-lo para mim. Esta fase é chamada de narcisimo secundário.
Com o amadurecimento podemos abrir mão também do narcisismo secundário. Não existe este ser fantástico, maravilhoso. As maravilhas desta vida não estão concentradas num único alguém, estão espraiadas por aí.
Mas são fases necessárias. A formação de nossa auto-estima começa assim, no olhar dos outros. Sou muito pequeno, não sei avaliar a ninguém, nem a mim mesmo. Como sou? Tenho algum valor? Bem, se me olham com admiração é porque valho alguma coisa, se me olham com desprezo, não valho nada.
As pessoas significativas em nossa infância e adolescência são o nosso espelho. Seu olhar é nosso espelho: "Espelho meu, existe alguém mais bonito do que eu?" Bem mais adiante na vida, alguns de nós, não todos, conseguem deixar de atribuir a função de espelho para os demais e resgatá-la em grande parte para si mesmo. Quero saber se tenho valor? Eu mesmo paro e me olho. Nesta fase nem as críticas, nem os elogios nos tocam tanto. Todavia, há que se manter a capacidade de observar o olhar dos outros sobre nós, sob risco de perdermos o contato e a adequação na forma como nos inserimos na sociedade em que vivemos.
Juca Pirama, lenda indígena contada em versos por Gonçalves Dias (1823-1864) trata com poesia e dramaticidade o tema da função espelho. Na época, quando um índio valente era aprisionado por outra tribo praticava-se o canibalismo. Ao ingerir sua carne simbolicamente incorporava-se suas qualidades. Ocorre que determinado índio ao cair preso, por ter o pai cego, pediu que não o matassem. De volta a tribo, seu pai revela-se indignado: "Tu choraste em presença da morte? Em presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és! Sê maldito, e sozinho na terra; Tu, cobarde, meu filho não és". Ou seja, o olhar da cultura indígena, esse espelho, refletia uma imagem de total desvalia desse pai. Com tamanha ferida em sua auto-estima, rejeita o filho. O filho, por sua vez, o que faz? Pega suas armas e investe sozinho contra a tribo Aimoré que o soltará. Conclusão é vencido, considerado valente e comido. Daí seu nome Juca Pirama que significa: aquele que merece morrer. Entre a vida e a autoestima, ditada pelo olhar do pai, não teve dúvida, optou pela segunda.

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